
Nas últimas três
semanas, Dilma Rousseff praticou tudo o que vinha renegando desde que tomara
posse na Presidência, há 32 meses. Passou a ouvir os que não escutava, a
enxergar os que nem olhava, a valorizar o que desprezava e a entregar o que
sonegava, sobretudo verbas e cargos. Portando-se assim, como uma presidente de
rima pobre, Dilma atingiu a fortuna de acalmar os aliados políticos.
Até meados de junho, a
presidente olhava para o Congresso de cima para baixo. Tinha-se a sensação de
que ela perguntava de si para si: onde vamos parar? Depois que as ruas
rebaixaram o salto de Dilma, os congressistas também passaram a se questionar:
onde vamos detê-la? Cruzaram-lhe no caminho uma macumba com um par de galinhas
pretas: Orçamento impositivo de emendas e rito sumário de análise de vetos
presidenciais.
Noutros tempos, Dilma
treparia em cima de sua popularidade, ajeitaria as cartas marcadas e gritaria
“truco”. Lipoaspirada pelos protestos de rua, preferiu seguir os conselhos de
Lula, o antecessor de alma acomodatícia. Como as oferendas vinham com as
bênçãos do PMDB, a presidente tomou três providências:
1. Mostrou às ministras
Ideli Salvatti (Relações Institucionais) e Gleisi Hoffmann (Casa Civil) o
caminho que leva ao vice-presidente Michel Temer, cuja experiência política
acumulada em 24 anos de Legislativo e três presidências na Câmara estava
esquecida num gabinete situado em edificação anexa ao Planalto.
2. Incorporou o líder
Eduardo Cunha (RJ), evangélico que o Planalto vê como uma espécie de Exu
Tranca-ruas do PMDB, à paisagem da sala de reuniões contígua ao gabinete
presidencial. Além de sentar-se à mesa com a presidente, o ex-desafeto ganhou a
atenção de Dilma e Cia..
3. Dilma restituiu ao
PMDB o sonho de dispor de ministérios com de “porteira fechada”, livres de
intrusos, sobretudo os “olheiros” petistas de Dilma. Ela autorizou os ministros
da legenda a preencher os cargos de livre nomeação de suas respectivas pastas.
Fechou o ciclo do toma-lá na expectativa de ver
restabelecido o moto-próprio do da-cá.
O governo ganhou outra
dinâmica. O Palácio do Jaburu, residência oficial de Temer e antiga sede das
lamentações do PMDB, tornou-se o epicentro de articulações pró-governo. Ali
foram esboçados os entendimentos que permitiram a Dilma prevalecer na primeira
sessão convocada pelo Congresso para analisar vetos presidenciais 30 dias
depois de publicados. Contrariando as expectativas, nenhum veto foi revisto.
No Planalto, em menos de
um mês, Dilma fez mais reuniões políticas do que fizera em dois anos e oito
meses de mandato. Junto com Temer, recebeu duas vezes os líderes governistas da
Câmara e os do Senado. Sozinha, reuniu-se com a bancada de senadores do PT,
para compensar encontro que tivera com os petistas da Câmara. De resto, manteve
o hábito de avistar-se com Lula a cada 15 dias.
Há uma diferença notável
entre a Dilma pré-protestos e a Dilma atual. Agora, a presidente ouve os
interlocutores com respeito. E responde com compostura. Ou seja: ela está
completamente fora de si. Nas sequência de um dos encontros, a ex-Dilma chegou
mesmo a comentar que considerara sensatas as observações feitas por Eduardo
Cunha.
Dilma jamais digerira
Cunha. A simples audição do nome causava-lhe engulhos. Sob Lula, o deputado
tornara-se um poderoso padrinho de nomeações em Furnas. Eleita, Dilma enxergou
na estatal elétrica anormalidades eletrizantes. E desalojou a turma de Cunha,
que atribuiu a má-vontade da presidente à artilharia do PT do Rio. Cunha
prometera o troco: “Quem com ferro fere com ferro será ferido.”
Coube a Temer abrir os olhos
de Dilma para o obvio. Eduardo Cunha virou líder do PMDB. Toca de ouvido a
segunda maior bancada da Câmara. Negar-lhe atenção seria tolice. Quando era
deputado, o cardeal Ciro Gomes (PSB-CE) chamava Cunha de “arcebispo”. Voltou
para o Ceará sem decifrá-lo por completo. “Ele casa, descasa e faz batizado
aqui. Qual a explicação para isso?” Enquanto procura a resposta que Ciro não
encontrou, Dilma achou melhor estreitar a inimizade.
Aos pouquinhos, os mimos
dirigidos ao PMDB começam a ser estendidos aos outros sócios do condomínio.
Além da pacificação no Congresso, Dilma tenta reconquistar a simpatia das
legendas que compuseram a megacoligação de 2010. Ela faz isso num instante em
os presidenciáveis de outras legendas ciscam ao redor.
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