Regiões mais pobres do país, Norte e Nordeste viram uma mudança do
perfil de sua frota nos últimos anos e, hoje, já têm mais motos do que carros
circulando nas ruas. Segundo o Denatran (Departamento Nacional de Trânsito), em
2012 o número de motos nas duas regiões superou o dos carros, diferente do que
aconteceu nas demais regiões do país.
No Nordeste, o número de motos e motonetas superou a marca de 5 milhões,
contra 4,9 milhões de carros nas ruas. O salto do número de motos é recente
–elas praticamente dobraram de quantidade em apenas cinco anos. Em 2008, eram
2,6 milhões de motos e 3,3 milhões de carros.
No Norte, a proporção é ainda maior: 1,6 milhão de motos contra 1,2
milhão de carros. A maior quantidade de motos na região, porém, é um fenômeno
menos recente: desde 2008 isso ocorre. Para efeito de comparação, o Estado com
maior frota --São Paulo-- tem uma moto para cada 3,1 carros circulando nas
ruas. No país, essa média é de 2,1.
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Explicação
econômica
A explicação para a febre das motos nas duas regiões é econômica. O
aumento real do valor do salário mínimo, as facilidades no crédito e até o
Bolsa Família explicam a mudança de perfil da frota nas duas regiões mais
pobres do país.
"A renda média da população pobre cresceu de forma significativa
nos últimos anos, e cresce mais rápido que a das classes A e B", informou
a economista Luciana Caetano, citando que as duas regiões são basicamente
dominadas por pessoas das classes C, D e E, principais públicos das motos.
"Muitas vezes o proprietário consegue a receita para pagar a
parcela com a própria movimentação que tem. É o substituto do cavalo, do
jumento, da carroça", disse Caetano.
Acidentes crescem
Com as motos e suas facilidades, as duas regiões passaram a registrar
mais mortes no trânsito. O crescimento no número de óbitos fez o assunto
entrar no topo da lista de problemas de saúde pública nas duas regiões,
especialmente nas emergências do interior.
Segundo dados do Datasus, do Ministério da Saúde, a região que registrou
maior aumento no número de mortes foi o Nordeste. Entre 2006 e 2011, o número
absoluto de óbitos saltou de 2.125 mortes para 4.035. Ou seja, por dia, 11
nordestinos morrem por dia em acidentes.
Traduzindo em dados, o crescimento foi de 89%, 30 pontos percentuais a
mais que a média nacional do mesmo período, que foi de 59%.
"O número de acidentes é extremamente preocupante. Sem dúvida é uma
epidemia. Da quantidade de leitos usados pelo SUS [Sistema Único de Saúde], a
grande maioria é para vítimas de acidentes de moto. É um gasto enorme",
disse Eloy Yanes, coordenador do Comitê para Redução de Morbimortalidade no
Trânsito de Alagoas.
Imprudência
Além de tirar vidas, os acidentes também causam prejuízos aos cofres
públicos. Segundo a Sociedade Brasileira de Medicina do Tráfico, a cada morte,
cinco pacientes por acidente de moto são internados em estado grave em um
hospital.
Já segundo levantamento do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada), cada paciente custa, em média, R$ 152 mil aos hospitais,
sobrecarregando o serviço público de saúde, especialmente nos Estados pobres.
Para Yanes, muitos condutores não estão verdadeiramente aptos a dirigir
motos na região. "O acidente de trânsito não é uma fatalidade, é algo
perfeitamente evitável. Ou foi uma falta de boa condução, ou de cuidado, ou
imprudência. Mesmo com Lei Seca, aqui temos muitos condutores bebendo e
dirigindo", disse.
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